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Cidade de Deus
Cidade de Deus (Brasil/2002)
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"Se ficar o bicho pega. Se correr o bicho come."
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O filme “Cidade de Deus”, baseado no romance homônimo de Paulo Lins, foi dirigido por Fernando Meirelles (com co-direção de Kátia Lund) narrando uma série de acontecimentos verídicos passados no conjunto habitacional Cidade de Deus, criado na década de 60 para abrigar miseráveis no Rio de Janeiro. Aclamado pela crítica internacional, o longa chegou ao país criando polêmica já na pré-estréia onde um traficante foi preso durante a sessão no maior complexo de cinemas do Rio, além das acusações de Fernando Meirelles ter recebido ajuda do tráfico durante as filmagens.
Deixando de lado a polêmica, a produção apresenta um mar de atores desconhecidos, muitas vezes amadores moradores da favela, que se encaixam como uma luva em seus verossímeis papéis. A fotografia é bem feita e funciona, se alterando de acordo com as três décadas em que a história, muitas vezes contada em flash-back, se passa. Tudo começa com a narração do jovem morador da Cidade de Deus, Buscapé, contando a história do trio ternura, composto por três bandidos do conjunto, um deles irmão de Buscapé, que resolvem assaltar um motel. Para acompanhar os assaltantes, aparece uma pequenina criança que personifica a crueldade e posteriormente se tornaria Zé Pequeno (interpretado com excelência por Douglas Silva na infância e Leandro Firmino da Hora quando adulto). O assalto não termina como planejado e acaba por desmantelar o trio ternura. Então, a história avança 10 anos e Buscapé, que começa a lutar pelo seu desejo de ser um fotógrafo profissional, começa a narrar a guerra que Zé Pequeno e seu bando instauram na favela objetivando o domínio de todas as bocas de fumo (como é conhecido o ponto de vendas de tóxicos pelo tráfico) da Cidade de Deus. O filme então introduz um enorme número de personagens, onde se destacam os simpáticos Cabeleira e Bené (interpretados pelos irmãos Jonathan e Phellipe Haagensen, nesta ordem), o traficante rival interpretado pelo único ator conhecido do grande público, Matheus Nachtergaele (de “Central do Brasil”), a representante da classe média que financia o tráfico, Angélica (Alice Braga), e Mané Galinha (Seu Jorge), que vem para mostrar que ter boas intenções não é o suficiente para não fazer parte do crime organizado nas favelas dos grandes centros brasileiros. A história se fragmenta em vários acontecimentos paralelos, vai e volta no tempo, se encaixando de forma surpreendente e brilhante, tudo isso através da narração de Buscapé que não deixa que o espectador se perca em meio a tantos fatos isolados.
Cidade de Deus é um filme forte, os banhos de sangue causados pela guerra entre quadrilhas rivais definem um tom assustador e deixam a platéia estarrecida. As cenas de ação são as melhores já produzidas pelo cinema brazuca e os diálogos rápidos e inteligentes muitas vezes quebram a tensão com hilárias tiradas. O filme vem para enfiar o dedo na ferida aberta de nossa sociedade, colocando a platéia como cúmplice de assustadores acontecimentos executados com tamanha realidade que chegam a aproximar o longa de um documentário. A produção levanta a discussão sobre a enorme desigualdade social instaurada nos grandes centros urbanos, onde as pessoas continuam a ignorar o problema se cercando de grades e indiferença. A platéia se sente culpada, aterrorizada, surpresa e ao mesmo tempo esclarecida, já que o jovem Buscapé vai explicando o como e o porquê do crime organizado (até mesmo o plano de carreira de um traficante) durante a trama.
É impossível ficar indiferente à “Cidade de Deus”, você irá sair do cinema outra pessoa, finalmente terá entendido o crime organizado, a mecânica de uma favela, as motivações que levam um ser humano a matar outro, tudo o que sempre viu pela ótica da imprensa terá sido visto pelo lado de dentro, pelo ponto de vista dos que foram excluídos e não tiveram alternativa, dos que lutam para permanecer honestos, e dos que são cruéis por natureza. A violência do filme machuca a platéia, enche de angústia e medo a alma de cada brasileiro, não é como um filme sobre uma guerra que já passou, não é uma fábula de um soldado que mata um exército para salvar a filha. É real, está ali, perto de todos nós, acontecendo debaixo do nosso nariz e é preciso que façam um filme para podermos enxergar. Além do lado denúncia, diferente de “Abril Despedaçado” e “Central do Brasil” (ambos de Walter Salles), a película de Fernando Meirelles não só mostra um oceano de desigualdade social, mas também funciona como entretenimento, graças às excelentes cenas de ação e ao humor capaz de arrancar boas gargalhadas da pasma platéia. Assistir “Cidade de Deus” não somente é a oportunidade de conferir uma das melhores produções já realizada em solo tupiniquim, como, mais do que isso, é um dever cível.
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Celso Alves
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